Analgesia não Farmacológica
O Parto Psicoprofilático e a
Trajetória de Dr. Lamaze

A analgesia não farmacológica no trabalho de parto pode ser promovida por métodos como o parto psicoprofilático, cuja principal referência é o médico francês Dr. Fernand Lamaze. Sua trajetória profissional e dedicação à implementação desse modelo de parto humanizado – livre de intervenções cirúrgicas ou anestésicas – tornaram-se emblemáticas na obstetrícia moderna.

O médico Pierre Vellay, colega e amigo de Lamaze, compartilhou uma descrição emocionante sobre sua personalidade e legado no texto intitulado “Parto sem Dor”.

Lamaze era um homem robusto, marcado por um ferimento de guerra, de aparência imponente e olhar bondoso, embora carregasse uma expressão de seriedade e profundo pensamento. Apesar de sua agenda sobrecarregada, era pontual, calmo e constantemente imerso em leituras, mesmo nos trajetos de ônibus e metrô. Vivia de forma modesta e era apaixonado por livros, que ocupavam praticamente todos os espaços de seu apartamento. Era, acima de tudo, um incansável buscador de conhecimento.

O início de sua parceria com o Dr. Vellay se deu em 1947, motivada por afinidades profissionais e ideológicas. A colaboração entre os dois cresceu a partir de um convite do médico P. Rouques, que pediu a Lamaze para organizar a maternidade da Policlínica dos Metalúrgicos. A partir daí, uniram esforços na criação de uma equipe coesa e comprometida com o desenvolvimento de um modelo de parto sem dor.

Em 1950, durante o Congresso Mundial de Ginecologia em Paris, o professor Nicolaiev, de Leningrado, compartilhou suas experiências com o parto psicoprofilático na União Soviética. Intrigado com os relatos de partos sem dor realizados por meio de técnicas não medicamentosas, Lamaze integrou a delegação médica francesa em visita à Rússia, em 1951.

Durante essa viagem, Lamaze teve a oportunidade de acompanhar um parto psicoprofilático no Instituto Pavlov de Koltushi. Ao lado do leito da parturiente, observou com admiração a serenidade da mulher, guiada por um médico durante o trabalho de parto. O episódio o marcou profundamente. Descreveu a cena como “uma fonte de luz” e, a partir de então, assumiu o propósito de oferecer às mulheres francesas a mesma experiência transformadora.

De volta à França, Lamaze e sua equipe iniciaram imediatamente os estudos e práticas baseadas no método psicoprofilático, apesar das limitações iniciais em literatura e equipamentos. A adesão das mulheres e a comprovação dos efeitos positivos reforçaram a viabilidade do método. Inspirados pelas pesquisas de Pavlov sobre reflexos condicionados, adaptadas à obstetrícia por Nicolaiev e Velvolski, os médicos franceses passaram a promover o parto sem dor como alternativa segura e humanizada.

Com dedicação incansável, Lamaze superou desafios diários, confiando em sua equipe e nas mulheres que se voluntariaram para participar das experiências. Sua maternidade se tornou referência internacional, recebendo médicos de diversos países, inicialmente céticos, mas que, após testemunharem os resultados, tornaram-se entusiastas da técnica.

O reconhecimento da relevância desse método chegou ao mais alto nível. Em 8 de janeiro de 1956, o Papa Pio XII reconheceu publicamente o valor do parto psicoprofilático, marcando um importante avanço para a medicina humanizada. Como afirmou um médico da época: “Daqui a 20 anos, uma nova geração de mulheres lembrará de Lamaze com gratidão, pois ele transformou radicalmente o parto – e até mesmo a condição da mulher no mundo ocidental.”

E ele estava correto. Este era o método empregado por minha mãe e tia Lucinha a todas as suas alunas do Parto sem dor. Há muitos relatos destas alunas que deram a luz em um nível suportável de dor ou completamente sem dor.

A acupuntura, uma das práticas terapêuticas da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), é utilizada há mais de 4.000 anos no Oriente e, nas últimas décadas, tem sido progressivamente difundida e reconhecida no Ocidente. Fundamenta-se no conceito de que a energia vital (Qi) percorre o corpo por trajetos específicos chamados meridianos. Esses meridianos atravessam órgãos e vísceras, e se exteriorizam na pele, tecido subcutâneo, músculos e tendões. Ao longo desses trajetos, existem pontos específicos com maior concentração energética, que podem ser estimulados (ou sedados) por meio da inserção de agulhas, promovendo o desbloqueio, equilíbrio e livre circulação da energia pelo organismo.

Mais do que uma simples técnica de inserção de agulhas, a acupuntura atua como um método de neuromodulação invasiva. Por meio do estímulo periférico, desencadeia respostas complexas no sistema nervoso central e periférico, mediadas por neurotransmissores e hormônios, sem o uso de medicamentos. O estímulo gerado pelas agulhas é transmitido por fibras nervosas até o sistema nervoso central, resultando em múltiplas reações fisiológicas.

 

Além da técnica tradicional, a acupuntura pode ser aplicada por meio de microssistemas, que são representações reflexas do corpo inteiro em regiões específicas. Esses métodos complementares permitem ampliar os efeitos terapêuticos:

Cranioacupuntura: aplicação de agulhas no couro cabeludo, onde convergem diversos meridianos.

Auriculoterapia: estimulação de pontos na orelha com agulhas, sementes de mostarda ou esferas metálicas.

Moxabustão: aquecimento dos pontos de acupuntura com bastões de carvão (moxa), promovendo relaxamento e circulação.

Laserterapia: uso de luz polarizada para estimular os pontos, sendo alternativa ou reforço à inserção de agulhas.

Ventosas: aplicação de sucção a vácuo na pele, promovendo descongestionamento energético e sanguíneo.

Eletroacupuntura: passagem de corrente elétrica pelas agulhas, potencializando os efeitos da técnica.

Existem ainda outras abordagens menos utilizadas, mas todas seguem o princípio fundamental de restabelecer o equilíbrio energético.

A acupuntura pode atuar em qualquer sistema do organismo, sendo indicada para diversas patologias, isoladamente ou como complemento a outros tratamentos, como os da medicina alopática, homeopatia, fisioterapia ou psicoterapia. Embora amplamente conhecida por seu papel no controle da dor, também contribui para a regeneração tecidual e recuperação funcional, independentemente da causa da disfunção.

Durante a gestação, a mulher vivencia profundas transformações físicas e emocionais. Com isso, é comum o surgimento de sintomas como náuseas, vômitos, dores lombares, cefaleia, ansiedade, estresse, insônia, depressão, edemas, azia, má digestão e gases. Esses desconfortos podem comprometer o bem-estar materno e afetar a qualidade do pré-natal.

Devido às restrições ao uso de medicamentos durante a gravidez, sobretudo pelo risco de efeitos adversos ao feto via passagem placentária, a acupuntura representa uma alternativa terapêutica segura e eficaz. Ela auxilia os profissionais de saúde na condução de um pré-natal mais confortável, promovendo alívio dos sintomas maternos e favorecendo o bem-estar do binômio mãe-feto, inclusive no período pós-parto.

A hipnose é uma prática ancestral que acompanha a história da humanidade desde as civilizações antigas do Egito, Grécia, China e África. Nesses contextos, era empregada tanto em rituais religiosos quanto como recurso terapêutico para tratar enfermidades como paralisia, epilepsia, cegueira e fobias. Naquela época, a hipnose estava frequentemente associada a práticas místicas, como cânticos, orações e rituais mágicos.

Seu uso clínico ganhou destaque nas escolas de medicina da França, onde passou a ser investigada e aplicada por médicos com o objetivo de reduzir a percepção tátil e a dor. O médico britânico James Braid (1795–1859) foi um dos primeiros a estudar a hipnose de forma sistematizada após observar uma cirurgia realizada com anestesia hipnótica. Ele cunhou o termo “hipnose”, derivado do grego Hypnos, deus do sono, interpretando inicialmente o estado hipnótico como um “sono do sistema nervoso”. No entanto, posteriormente reconheceu que o estado hipnótico não é comparável ao sono, mas sim um estado de intensa atividade psíquica, com foco concentrado e elevada consciência. Braid utilizava a hipnose como método de anestesia cirúrgica e incentivava a auto-hipnose, especialmente em um período anterior à introdução do éter (1846) e do clorofórmio (1847).

No século XX, a hipnoterapia passou por uma transformação significativa com o trabalho do psiquiatra americano Milton Hyland Erickson (1901–1980). Considerado o maior hipnoterapeuta do século, Erickson propôs uma abordagem moderna, estratégica e centrada na solução. Ele demonstrou que a hipnose é um fenômeno natural da mente humana, presente em nosso cotidiano, e a aplicou com sucesso em diversas condições psicológicas. Seu legado inclui vasta produção científica e contribuições práticas para a terapia breve e centrada no paciente.

Durante o século XX, o uso da hipnose na obstetrícia foi temporariamente abandonado. Estudos iniciais mostraram que o estado hipnótico materno podia reduzir a frequência cardíaca fetal, o que era interpretado como sinal de sofrimento fetal. No entanto, pesquisas posteriores esclareceram que essa alteração não indicava risco ao feto, e a hipnose voltou a ser explorada como ferramenta segura e eficaz no contexto gestacional e durante o parto.

A hipnose oferece inúmeros benefícios à gestante. Entre eles, destacam-se o controle da ansiedade, da pressão arterial, da respiração e da frequência cardíaca, promovendo um estado de tranquilidade e foco durante o trabalho de parto. Essa abordagem contribui para o alívio da dor e redução do medo, aspectos fundamentais para uma experiência de parto mais positiva. A dor, por si só, aumenta a demanda de oxigênio da mãe e do feto, criando uma competição desigual, em que o feto tende a ser desfavorecido. Portanto, a hipnoanalgesia auxilia no equilíbrio fisiológico entre mãe e feto, promovendo segurança e bem-estar para ambos.

É amplamente reconhecido que a prática regular de exercícios físicos pode aliviar diversos desconfortos comuns durante a gestação, como dores musculares e articulares, lombalgia e tendência à formação de varizes. Além disso, o condicionamento físico adequado melhora a postura e favorece o fortalecimento dos grupos musculares mais exigidos durante esse período, especialmente os músculos da pelve, abdominais e lombodorsais. Tais benefícios se estendem ao trabalho de parto, contribuindo para uma melhor preparação física da gestante.

Entre as modalidades de atividade física, a yoga tem se destacado como uma prática segura e eficaz para gestantes, desde que adaptada corretamente. Embora compartilhe algumas semelhanças com exercícios de outras modalidades, a ênfase da yoga em alongamentos e mobilidade exige cuidados especiais, devendo ser conduzida por profissionais capacitados e experientes em atender mulheres grávidas.

As aulas de yoga para gestantes seguem uma estrutura semelhante à tradicional, com adaptações importantes. Antes de 120 dias de gestação, a prática da Kundalini Yoga é permitida, exceto em casos de histórico de aborto espontâneo. Evitam-se, nesse período, técnicas como respiração de fogo, posturas invertidas ou movimentos intensos. É fundamental respeitar os limites individuais da gestante, permitindo que o ritmo da aula seja ditado por sua própria percepção corporal e emocional. A respiração profunda e consciente deve ser central na prática, contribuindo para o relaxamento, a oxigenação e o preparo para o parto.

Alguns exercícios específicos merecem destaque, como a postura de cócoras, que favorece a dilatação no momento do parto. Essa postura pode ser incluída com frequência, sendo contraindicada apenas em situações de fragilidade cervical, dilatação precoce ou sangramento. Outro elemento essencial é o fortalecimento do períneo, por meio de contrações perineais. Essas contrações contribuem para a saúde genital e urinária, prevenindo a incontinência urinária, o prolapso de órgãos pélvicos, varizes, hemorroidas e até o parto prematuro. Recomenda-se a realização de 50 a 100 contrações perineais diárias, com atenção para que a musculatura abdominal não seja ativada indevidamente durante o exercício.

As aulas para gestantes costumam ter duração estendida, de até duas horas, devido à necessidade de esclarecimento de dúvidas e troca de informações sobre o período gestacional e o pós-parto. É importante que o professor oriente as participantes sobre cuidados com o recém-nascido, aleitamento materno, recuperação pós-parto e aspectos emocionais do puerpério. Isso se torna ainda mais relevante considerando que muitas gestantes, especialmente após o sexto mês, tendem a reduzir a frequência ou interromper a prática.

Entre os principais benefícios relatados pelas gestantes que praticam yoga destacam-se: fortalecimento muscular, maior tranquilidade emocional, melhora do condicionamento físico, aumento da disposição, melhora da postura, menor ganho de peso, redução de edemas e melhora da qualidade do sono.

Disciplinas orientais como Yoga, Tai Chi Chuan, Pilates e Chi Ball vêm se tornando cada vez mais acessíveis à população, inclusive em academias sob diferentes denominações como Power Yoga ou Body Balance. Essas práticas promovem a integração entre corpo e mente, permitindo que a mulher vivencie a gestação de maneira mais consciente, equilibrada e preparada para a chegada do bebê.

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