A História da Dor
Da Punição Divina ao Direito ao Alívio

Você já ouviu que a dor do parto é uma punição divina? Essa ideia vem de um trecho da Bíblia, no livro de Gênesis (3:16), onde Deus diz à mulher: “Multiplicarei grandemente a tua dor; com dor darás à luz filhos.” Durante muitos séculos, acreditou-se que sentir dor — especialmente no parto — era algo natural, necessário ou até nobre. Mas a forma como enxergamos a dor mudou muito ao longo do tempo.

Na Antiguidade, a dor era um grande mistério. Sem entender suas causas, muitas culturas explicavam o sofrimento como castigo dos deuses ou uma forma de purificação espiritual. 

Na Idade Média, por exemplo, acreditava-se que a saúde do corpo dependia do equilíbrio entre quatro substâncias chamadas humores — e o desequilíbrio entre elas causaria dor. Para aliviar esse sofrimento, eram feitas sangrias, orações, dietas ou até golpes leves na cabeça para deixar o paciente inconsciente. Era comum usar vinho ou ervas como mandrágora, além de práticas como hipnose, encantamentos ou compressas frias.

Até o século XVII, não havia medicamentos seguros para aliviar a dor. O que se usava com mais frequência era o álcool — sim, garrafas de uísque eram os “anestésicos” das cirurgias! Foi só a partir do filósofo René Descartes que começamos a entender a dor como uma reação física do corpo a estímulos nocivos, algo que envolvia o cérebro e os nervos. Isso abriu caminho para pesquisas mais profundas nos séculos seguintes.

No século XIX, cientistas descobriram substâncias mais eficazes, como a morfina, o éter e o clorofórmio. Com o avanço da medicina, surgiu também uma nova ideia: aliviar a dor passou a ser um direito, e não uma fraqueza. Mesmo assim, muitos médicos ainda hesitavam em usar anestesia, com medo de que isso levasse à morte ou à perda da “dignidade”.

Por incrível que pareça, até a década de 1970, muitas crianças não recebiam anestesia durante cirurgias — acreditava-se que elas não sentiam dor como os adultos. Somente nos anos 1980 isso começou a mudar, graças aos avanços da neurociência e ao reconhecimento da dor como um fenômeno complexo, que envolve corpo e mente.

Hoje, sabemos que sentir dor não é algo que deve ser romantizado. A dor é uma experiência física e emocional desagradável, e temos recursos seguros para combatê-la. Analgésicos como paracetamol, aspirina e medicamentos derivados do ópio (como morfina e codeína) são amplamente utilizados, principalmente em hospitais.

No caso das mulheres, a dor do parto foi por muito tempo encarada como algo inevitável, até mesmo como um ritual de passagem. Mas com os avanços da obstetrícia e da anestesia, essa visão mudou. Ainda hoje, algumas pessoas acham que usar anestesia (como a peridural) tira a “força” da mãe. Mas a verdade é que aliviar a dor é um direito — e não há motivo para sofrer se temos meios seguros de evitar isso.

Antigamente, a dor tinha um “sentido”. Hoje, queremos entender como evitar o sofrimento desnecessário. A dor não precisa mais ser aceita como um destino inevitável — ela pode e deve ser tratada com carinho, respeito e ciência.

×